Como TikTok e Instagram usam a inteligência artificial: o algoritmo decide o que vemos?

Descubra como a IA e os algoritmos personalizam as redes sociais e os riscos da manipulação de feeds. Quem controla o que vemos nas mídias sociais?

Os algoritmos decidem o que vemos nas redes sociais

Deslizamos com um dedo e, como por magia, aparecem vídeos perfeitos para nós. Mas como o TikTok sabe que gostamos de gatos engraçados ou de tutoriais de culinária? E por que o Instagram continua a nos sugerir posts sobre um tema que apenas tocamos com um olhar?

A resposta está na inteligência artificial. Os algoritmos que regem os feeds das redes sociais não são simples sequências de código: são sistemas complexos que aprendem com nossos comportamentos para nos oferecer conteúdo personalizado. Uma conveniência, certamente. Mas também uma ferramenta potencial de manipulação que merece ser compreendida a fundo.

Como funcionam os sistemas de recomendação

Cada vez que damos um like, permanecemos mais tempo em um post ou assistimos a um vídeo até o final, estamos fornecendo uma informação valiosa para um sistema de recomendação. Este sistema memoriza nosso comportamento, o compara com o de milhões de outros usuários e tenta entender o que poderíamos querer ver a seguir.

É assim que se constrói a famosa "bolha personalizada": um fluxo contínuo de conteúdo sob medida, otimizado para nos manter grudados na tela. O algoritmo do TikTok, por exemplo, considera mais de 1.000 sinais diferentes para cada usuário: desde o tempo de permanência nos vídeos até a velocidade de rolagem, das interações sociais aos horários de uso do aplicativo.

O Instagram utiliza uma abordagem semelhante, mas mais estratificada, combinando os dados do feed principal com os das Stories e dos Reels. O resultado é um ecossistema de conteúdo que parece nos conhecer melhor do que nós mesmos.

A inteligência artificial por trás da personalização

A tecnologia que torna tudo isso possível se baseia em algoritmos de aprendizado de máquina cada vez mais sofisticados. Esses sistemas utilizam redes neurais profundas capazes de identificar padrões complexos em nossos comportamentos digitais.

O TikTok, em particular, desenvolveu um algoritmo chamado "For You Page" que combina filtragem colaborativa (sugestões baseadas em usuários semelhantes) e filtragem baseada em conteúdo (análise das características dos conteúdos). A inteligência artificial analisa não apenas o que assistimos, mas também como o assistimos: os micro-movimentos do dedo, as pausas, até mesmo a inclinação do telefone.

O Instagram integrou a IA de forma ainda mais pervasiva. Além dos conteúdos do feed, o algoritmo influencia também os resultados de busca, os conteúdos sugeridos em Explore e até a ordem das Stories. Como aprofundamos em nosso artigo sobre IA e redes sociais: algoritmos que nos guiam, esses sistemas estão redefinindo a forma como consumimos informações online.

Exemplos concretos de manipulação algorítmica

O problema não é tanto a eficiência desses sistemas, mas sim os efeitos colaterais indesejados. Corremos o risco de sermos expostos apenas a opiniões semelhantes às nossas, reforçando convicções sem contraponto. Nos piores casos, podemos ser conduzidos a conteúdos extremos, conspiratórios ou manipuladores, não porque o algoritmo "queira" fazer isso, mas porque ele aprendeu que esse tipo de conteúdo nos retém por mais tempo.

Uma investigação do Center for Humane Technology destacou como as plataformas sociais incentivam inconscientemente a disseminação de conteúdos polarizadores. O TikTok, por exemplo, foi criticado pela forma como seus sistemas podem rapidamente empurrar os usuários para vídeos radicais ou teorias da conspiração se o usuário demonstrar até mesmo um interesse mínimo inicial.

O Facebook (agora Meta) admitiu que seus algoritmos tendem a favorecer conteúdos que geram "engajamento", mesmo quando isso significa amplificar raiva ou indignação. Em 2021, o testemunho de Frances Haugen no Congresso americano revelou como a empresa estava ciente desses efeitos desde 2018.

Privacidade e coleta de dados: o preço da personalização

Tudo isso acontece graças a uma combinação sofisticada de machine learning, análise preditiva e coleta massiva de dados pessoais. E aqui entra em jogo a questão da privacidade. Os dados que cedemos às redes sociais – mesmo apenas interagindo com um conteúdo – são processados para reconstruir gostos, fragilidades, tendências emocionais.

O TikTok coleta mais de 380 tipos de dados diferentes sobre seus usuários, segundo uma análise do pesquisador de cibersegurança Felix Krause. O Instagram não fica atrás: através do seu navegador integrado, pode rastrear cada clique, cada movimento do cursor, até mesmo textos digitados mas não enviados.

O objetivo declarado é nos manter ativos e presentes pelo maior tempo possível. Mas a que preço? Como exploramos em nosso artigo sobre foco e atenção na era digital, essa hiperconexão está tendo efeitos profundos na nossa capacidade de concentração.

Vieses algorítmicos e discriminação digital

O que preocupa não é apenas a criação de perfis. Os chamados vieses algorítmicos também desempenham um papel crucial. Os algoritmos não são neutros: eles aprendem a partir de dados humanos, muitas vezes imperfeitos. Se um certo tipo de conteúdo foi premiado no passado, continuará a sê-lo, reforçando tendências já existentes e penalizando a diversidade de visão.

É assim que se constroem dinâmicas que favorecem alguns grupos e marginalizam outros. O Instagram, por exemplo, foi acusado de penalizar conteúdos criados por pessoas negras ou pertencentes a minorias. O TikTok admitiu ter utilizado políticas que limitavam a visibilidade de criadores com deficiência ou "não convencionais" para evitar bullying, criando, no entanto, de facto, uma forma de censura discriminatória.

Um estudo do MIT Technology Review demonstrou que o algoritmo do TikTok tende a mostrar conteúdos diferentes a utilizadores de etnias diferentes, mesmo quando têm interesses semelhantes, perpetuando divisões sociais através da personalização.

Pontos-chave a lembrar

  • Os nossos comportamentos digitais alimentam algoritmos cada vez mais sofisticados que criam bolhas personalizadas de conteúdo
  • A personalização pode levar à radicalização quando privilegia conteúdos que geram fortes reações emocionais
  • Os dados recolhidos vão muito além de gostos e partilhas, incluindo micro-comportamentos e padrões psicológicos
  • Os vieses algorítmicos refletem e amplificam preconceitos humanos, criando discriminações sistémicas no mundo digital

Perguntas frequentes

Como posso reduzir a influência dos algoritmos no meu feed? Diversifica ativamente as tuas interações, segue contas com opiniões diferentes e utiliza regularmente a função "Não interessado" quando apropriado.

As redes sociais sabem realmente tanto sobre mim? Sim, recolhem centenas de pontos de dados diferentes, frequentemente cruzando informações de múltiplas fontes para criar perfis detalhados dos teus interesses e comportamentos.

Existem alternativas às redes sociais tradicionais? Emergem plataformas mais transparentes como o Mastodon ou o BeReal, que utilizam algoritmos mais simples ou feeds cronológicos, mas têm ainda uma adoção limitada.

Como sei se estou numa bolha informativa? Verifica se raramente vês opiniões que contradizem as tuas convicções ou se os teus feeds sociais são muito homogéneos nos temas e pontos de vista apresentados.

Rumo a uma maior consciência digital

A inteligência artificial nas redes sociais tem duas faces. Por um lado, permite-nos descobrir novos conteúdos, conectar-nos com quem partilha interesses semelhantes, viver experiências digitais mais fluidas. Por outro, pode tornar-se uma lente deformante, que nos mostra apenas uma parte da realidade, aquela que nos faz ficar.

Para enfrentar essa complexidade, é necessária consciência. É necessária uma alfabetização digital que ajude as pessoas a reconhecer os mecanismos subjacentes, a questionar por que vemos certos conteúdos e não outros. Como discutimos em nossa análise sobre fake news e guerra informativa, a capacidade de pensamento crítico torna-se cada vez mais essencial.

Só assim podemos passar de usuários passivos a cidadãos digitais críticos. O futuro das redes sociais não depende apenas da tecnologia, mas de como decidimos usá-la e regulá-la. E de quanto queremos compreender o que se esconde por trás de cada rolagem.